8/29/2007

EXPEDICION SUDAMERICANA

4/08/07

FLORIANÓPOLIS

O dia começa cinzento e acaba chuvoso. As poucas horas de sono resultam do conflito entre curiosidade e cansaço de onde este último saiu derrotado.

A viagem de ontem acrescentou-nos mais um “semi-destino” ao ter-nos obrigado a uma imprevista e duvidosa escala em Porto Alegre (Rio Grande do Sul). Entre ventos desfavoráveis e conveniências da transportadora GOL, lá acabámos por chegar após quase 24h em trânsito.

O anexo da casa e dois "clássicos".

Mas retomemos ao que interessa. Estamos alojados numa casa única (ou quase única porque está certa a vista à casa “irmã”). Não se trata de um apartamento nem vivenda, nem de barracão ou favela. Vamos chamar-lhe um outro conceito, onde o “faça você mesmo”, aliado a uma consciência ecológica muito progressista e completamente desligada da sociedade de consumo, se encontram num longo período de construção e adaptação idealizados e concebidos pela mesmo pessoa. Giovani, o arquitecto, engenheiro civil, pedreiro e, acima de tudo, ecologista, confia mais nos seus genes e experiência do que em quaisquer cálculos matemáticos. Ainda menos confia nos próprios planos, cujas ondas do mar apagam da areia após uns traços discutidos.

Pormenor das "janelas"

De forma engenhosa e desinibida, rodeada por uma luxuriante “mata atlântica” e bem ao lado de um próximo mas oculto riacho, a casa representa a harmonia com a natureza enquanto se debruça para uma breve nesga de Florianópolis, ou Floripa para os íntimos.
Vista sobre Florianópolis e crianças a brincar com papagaios de papel.

Num raio de visão mais próximo, crianças manejam papagaios nervosos que estranhamente permanecem no ar à custa de repetidos puxões. Comprovo com os anfitriões os meus parcos conhecimentos de papagaios de papel no que toca às disputas que com eles se pode fazer com um pouco de parafina e pó de vidro. Sou, porém, alertado para o perigo deste infantil e aparentemente inocente jogo quando papagaios perdidos e apetrechados de parafina e pó de vidro surpreendem os motociclistas na estrada…

Vamos até à beira mar, um pouco a norte da cidade – Cacupé. Tem tudo para ser paradisíaco: mar sem ondas (estamos no canal que separa a ilha de Floripa do continente), areia fina, montes de pedras arredondadas a fechar a praia nos dois extremos, sons brasileiros por perto e árvores diferentes a 4 metros da linha de água. Tenho a certeza que a água é transparente e cristalina mas o céu coberto não me permite sequer distinguir bem a linha de água no horizonte.



Mais 3 minutos de carro e paramos na povoação litoral de Santo António de Lisboa. Surpreende-nos um marco histórico. Quase sem querer, pisamos a via pública, naquela que foi a primeira rua empedrada em todo o Estado, inaugurada em 1845 por Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina. Aqui, uma feira de rua está a ser montada e procuramos doces novos. Entre desconfiança e hesitação, escolho a paçoca de amendoim, uma variação consideravelmente mais açucarada dos familiares nougats.


Paramos para almoçar peixe, obviamente, não estivéssemos rodeados por mar. Descubro o Pirão que, a partir da água de cozer peixe e mandioca, dá origem a um acastanhado molho espesso e saboroso acompanhamento.

Seguindo no 4x4, paramos numa outra praia mais à frente (Sambaqui), onde invejamos os locais que, sem a restrição de leis ou com a desculpa da antiguidade, aqui construíram verdadeiros chalets em cima da linha de água.

Colibri/ Beija-Flor

Um som novo desperta-me a atenção. Dou conta de esvoaçar à nossa volta um pássaro estranho e que rapidamente identifico como sendo o colibri ou beija-flor como é mais conhecido aqui. Mais incrível ainda e após tanta insistência no lugar onde estávamos, apercebemo-nos da existência de um pequeno ninho construído sobre os galhos de uma também pequena árvore a não mais que 3 metros da linha de água e bem à altura das nossas cabeças. Lá dentro, dois minúsculos ovos à espera de se resolverem a explorar este pequeno paraíso.


Quer o tempo relógio quer o tempo clima não perdoam. Vamos ainda à famosa praia da Joaquina, meca do surf da região. Deve ser uma boa praia. Acredito no que me dizem. Na minha memória levo apenas a sensação de frio e vento, o mar desalinhado e a noite cerrada que aqui cai um pouco mais depressa do que na nossa latitude.




5/08/07

O dia de hoje não estava na agenda. Estava planeado um passeio pelos arredores de Florianópolis, isto é, praias e miradouros da ilha e do continente mas as núvens persistentes dizem-nos que não é esse o nosso destino.

Alguém quer cachorrinhos?

Partimos para Nova Trento, aproveitando para conhecer familiares recém-adquiridos. Nova Trento fica a cerca de 1h de automóvel mas representa o recuo de umas décadas ou até séculos ao ambiente agrícola de uma pequena localidade de província fundada por colonizadores italianos provenientes de, claro está, Trento.

É preciso também dar o desconto de que para mim, enquanto “rapaz da cidade”, tudo o que meta galinhas, vacas e hortas é novo para mim.




Desta vez tivemos sorte. Apesar do céu ameaçador e da impossibilidade de visitar o Monte da Cruz onde poderíamos ter uma perspectiva de todo o vale, chegamos em dia de feira regional. Música ao vivo, comida tradicional, tendas de artesanato com produtos que resultam mais do recreio do que do trabalho dos artesãos locais. Há ainda carrosséis e outras animações que impunemente funcionam na mais rudimentar lei da oferta e da procura, não no preço, mas claramente no número de voltas oferecidas em cada viagem. Este é um dos aspectos que mais me surpreende, a ausência de objectores ou sequer críticos desta prática tão primitiva de domínio de mercado.



A nossa experiência agrícola começa por uma estreita e bonita entrada ladeada por palmitos, uma palmeira cujo interior é comestível e que se encontra protegida por motivos de raridade. Depois do portão, uma pequena casa rústica, uma horta, galinheiros, cães pouco ou nada ameaçadores e um prado que continua até ao rio. Uma vaca e dois bois que pastam intrigados pela nossa passagem.

Junto ao rio, um grande “bambuzal” surpreende-me ao erguer as suas raízes à altura da minha cabeça e que ao longo dos anos foram sendo expostas por gulosas vacas.



Fiquei a conhecer um método mais simples de fazer queijo, enquanto me delicio com o resultado final e, mais tarde, com a própria matéria-prima, fresca e desnatada.

O rol de transportes que eu previa foi alargado. Ainda em Nova Trento, peguei numa velha e pesada bicicleta para dar um pequeno passeio com a reguila Alice. Infelizmente, a estrada alcatroada desaparece para além da rua principal e a idade da bicicleta já só se satisfaz com o tapete dos tempos modernos. Avistamos ao fundo um bando de urubus que rodeiam o galinheiro à procura de restos de comida. São grandes e deixam-nos aproximar até bastante perto, o suficiente para as galinhas avançarem na nossa direcção com um ar ameaçador e totalmente no seu direito.

Chá Mate no mercado de Florianópolis


6/08/07

O dia de hoje vai ser puxado. Esperam-nos 8 horas de viagem até ao interior do estado de Santa Catarina.

Antes disso, porém, vamos até ao centro e, em particular, ao mercado. Segunda-feira transparece o ritmo diário da cidade. As ruas pulsam de gente, especialmente em redor da Praça 15 de Novembro.



Florianópolis não espelha o Brasil. Tem uma melhor qualidade de vida, ganha-se menos mal e possui uns “ares” mais europeus, quanto mais não seja pelo clima mais temperado.

Após um “biffet” bem diversificado e também ele um pouco “europeu”, partimos em direcção ao ocidente.





Leio admirado no jornal local um artigo assinado pelo presidente de uma associação de comerciantes, sobre a necessidade urgente de uma mudança de atitude no que respeito ao atendimento do cliente no estabelecimento comercial. O artigo seria bastante natural se o mesmo vivesse em Portugal, mas aqui não vejo necessidade para tanto. Demonstro com a nossa experiência do momento, em que enquanto um funcionário abastece, outro dá uma (revisão) “geral” no veículo e outro lava os vidros. Isto totalmente gratuito, obviamente, e sem a manifesta pretensão de gorjetas. Já na véspera tínhamos sido surpreendidos pela disponibilidade e proactividade de uma funcionária que havia fechado há poucos minutos a porta do estabelecimento que atendia. Para quando uma mudança de atitude em Portugal ou, pelo menos, um dirigente manifestar as suas preocupações em público sobre este assunto?



O caminho até Chapecó é longo para os nossos padrões e a estrada também não ajuda. Achamos particular piada à ausência de equipamento electrónico durante os cortes de estrada para obras. Não peço placares informativos. Um walkie talkie bastava. O sistema que usam é tão precário quanto falível. Uma bandeirola é transportada, devolvida pelo último carro da fila, enquanto a fila do lado oposto espera pela dita, na esperança que um condutor mais distraído, quem sabe amante da música sertaneja que se vende nestas filas no meio do nada pelo próprio artista, não a leve consigo.

Apercebemo-nos, pela primeira vez, da dimensão do país, com horizontes limpos de vestígios humanos a perder de vista. Terra e mais terra, alguma da qual sobre posse do mesmo proprietário aonde a vista alcança. Dizem-me, porém, ser este o estado com uma melhor distribuição de propriedade do país, tão actual que está esta questão.

Chegámos a Chapecó já tarde, onde fomos recebidos por um cartaz que nos pede para não dar esmolas. Isto promete…

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